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Todas as segundas, quartas e sextas um artigo quentinho com opiniões aleatórias, questionamentos socráticos e visões confusas de mundo!

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Somos todos “coxinhas”

No ano passado, um termo chamou-me a atenção pelo seu grande uso na verborragia brasileira em tempos de eleições. Era “coxinha” pra lá; “coxinha” pra cá; “são um bando de coxinhas”... Logo desconfiei que era algo muito além do típico salgado brasileiro recheado com frango, crocante por fora (quando bem feito, claro) e macio por dentro. Perguntava-me: “Coxinhas... Quem são? Como surgiram? Como vivem? São crocantes e macios também?”.

Já percebendo que se tratava de um termo com utilização pejorativa, ainda fui pesquisar no vasto mundo virtual para um certo aprofundamento, e li várias definições, mas, no geral, resumiria em pessoa “certinha”, conservadora, que gosta de seguir o que for definido como bons costumes no momento, geralmente possuindo um bom poder aquisitivo (uma classe média alta pra cima...), “mauricinhos” e “engomadinhos”... enfim, burguês.

E foi com essa ideia de burguês é que me veio uma reflexão: não seríamos todos burgueses (ou coxinhas)?

Sei que pode ser uma pergunta que generaliza, e que pode assustar e/ou indignar alguns... Concordo que é uma generalização, mas suspeito fortemente que o contexto serve a muito mais gente do que se imagina... E antes que me acusem, deixem-me que eu mesmo me inclua nessa massa (de coxinha).

Bom, antes de continuar, um parágrafo de breve História: os burgueses eram os cidadãos que habitavam os burgos, nome dado às cidades que surgiram na mais famosa Idade Média – a europeia, entre os séculos XI e XII – geralmente aos arredores dos castelos medievais, e por vezes cercadas por muros. Os burgos surgiram da necessidade de abrigar a grande massa de comerciantes e suas famílias, que crescia em número naquele período, devido ao intercâmbio entre o Oriente pós-Cruzadas e o Ocidente europeu. Com o tempo, formaram uma classe social e passaram a emergir como uma força política e econômica, tirando o poder da nobreza medieval (e até da Igreja que influenciava fortemente, na política e na economia). O maior objetivo dos burgueses: acumular bens... E assim, foram dando mais valor a quem tinha mais bens que outros; não importavam as qualidades, virtudes humanas que se poderia ter, mas sim o quanto se tinha ($$$$$) e o quão capacitado para produzir mais e mais se era.

Hoje, quando se fala em burguesia, associa-se a uma classe média alta ou rica, como já citado... Ou seja, os coxinhas... Mas também fiquei me perguntando: será que o que mais caracteriza os burgueses é o quanto de money se tem? Eu acredito que não. Acredito em uma mentalidade burguesa, que se reflete em um modo de agir, tendo mais ou menos dinheiro. Com mais, claro que fica mais evidente os comportamentos característicos dos “coxinhas”. Mas, quem pode garantir que os que têm menos não teriam os mesmos comportamentos se tivessem mais desse “$poder$”? Como diz um bom ditado: “Quer conhecer de verdade uma pessoa, dê poder a ela”.

Partindo do objetivo de acumular bens... em geral, não queremos fazer nossa poupança para um futuro melhor, seja para nós mesmos e/ou para os entes queridos? Ter casa, carro e qualquer outro bem? Levantamos cedo e vamos trabalhar para ganhar mais e mais, para se ter mais e mais... Queremos melhores salários ou lucros, trabalhando menos, para “curtir a vida”, seja ficando em casa assistindo TV ou viajando uma pequena viagem para Caldas Novas ou Pirenópolis; ou ainda para comprar o carro do ano, o celular mais tecnológico ou passear em Paris. Queremos a lei do menor esforço: ganhar mais e trabalhar menos... Uma forma de economizar energia... um tipo de acúmulo de bens, não?

Outra característica do burguês (o de lá da Idade Média...): viver do trabalho alheio. Não é isso que queremos? Ter mais dinheiro para obter, por exemplo, a comida pronta (seja para fazer em casa ou comer no restaurante), ou para pagar aquele serviço de diarista para ter minha casa limpa e minhas roupas lavadas e passadas? E não pode ser de qualquer jeito... tem que ser tudo bem feito, temos que ser bem atendidos, bem tratado, mimados... afinal de contas, “eu tô pagaaaando!”.

E já que “estamos pagando”, podemos fazer o que quisermos... Somos “livres” para experimentar tudo... Esta é uma outra mentalidade da burguesia: a liberdade em todos os sentidos. E podem pensar: “Ah, mas só quem pode fazer isso é quem tem dinheiro...” Relembro e repito: não é questão de ter ou não dinheiro, mas uma mentalidade. Fazemos isso em situações simples do cotidiano.

E para não se estender mais neste tema (por hoje), e como já citei, nos burgos o valor econômico de cada um passa a ter prioridade; o “ter” prevalece sobre o “ser”; o status social, a roupa de marca, o carro do momento, a tecnologia mais moderna são valorizados mais que o aspecto humano... E junto a isso, os relacionamentos (seja de amizade ou de família), a estrutura a vida política, nossos trabalhos, as expressões artísticas... são baseados em interesses, em o quanto podemos ganhar... seja em bens físicos ou em status... enfim... generalizações à parte, pobres ou ricos, que cada um faça sua própria reflexão: somos ou não somos “coxinhas”?

quarta-feira, 15 de julho de 2015

E o outro lado?

O ano é 2015, o planeta é a Terra e os problemas ainda são os mesmos, mas anabolizados pelo desenvolvimento das tecnologias da informação. Com a popularização da Internet e das redes sociais um velho problema do ser humano veio a se avultar: a dificuldade de conviver e assimilar a diferença.

Engana-se quem acha que estes problemas surgiram ou pioraram nos últimos tempos. Assim como se engana quem acha que as guerras ou das doenças se proliferam como nunca antes, bobagem, as guerras e as doenças hoje são muito menores e menos letais que há 50 anos. O que ocorre é que hoje se há um surto de ebola em uma aldeia da África, amanhã esta informação já terá chegado da Austrália ao Chile. Se há um massacre em um remoto povoado da Indonésia em poucas horas já haverá manchetes no New YorkTimes e no El País. 50 anos atrás, antes destas notícias se espalharem passavam-se dias, às vezes até alguns meses, e a situação já poderia estar resolvida. Assim, apenas coisas realmente grandes e impactantes valiam a pena ser mencionadas nos velhos jornais e revistas de papel. O mesmo acontece com a Torre de Babel que se tornaram as posturas ideológicas, ninguém se entende, mas ninguém nunca se entendeu muito bem mesmo.

Damo-nos conta das posições ideológicas e culturais muito diversas das nossas justamente por conta do intensivo uso das redes sociais e da forma como elas estão estruturadas. Uma pessoa comum tem entre 100 e 300 amigos em suas redes sociais (este número é bem achômetro, baseado nos amigos que são mais próximos e em alguma matéria que li faz muito tempo, na época do Orkut, que dizia algo por aí...). Dentro deste universo você tem colegas de trabalho e/ou faculdade, família, amigos antigos, dos tempos de escola, pessoas que teve um breve contato em uma viagem ou curso e eventualmente algumas amizades feitas pela Internet. Pois bem, nos tempos pré-redes sociais, você se encontraria com a maioria destas pessoas algumas poucas vezes, trocaria ideia com elas menos vezes ainda e talvez nunca soubesse o que boa parte pensa sobre cotas raciais, casamento homossexual ou corrupção no governo. Os seus amigos mais próximos, os quais você troca ideias constantemente, costumam ser mais próximos justamente por haver certa afinidade ideológica e/ou cultural. Ou seja, antes das redes sociais todos vivam mais ou menos em casulos, mantendo perto e debatendo apenas com quem tinha um pensamento mais ou menos parecido com o nosso; com o advento desta ferramenta passamos a travar contato diário com o que se passa na cabeça de pessoas que conhecemos, mas não temos tanta proximidade assim. E muitas vezes nos assombramos com como podemos ter ideias diferentes sobre o mundo.

Justamente ao travar este contato com opiniões tão divergentes que este defeito humano, a dificuldade de entender e aprender com o outro, toma proporções titânicas. Ao invés de, ao ter este contato, se colocar no lugar do outro, tentar entender as raízes daquele sistema de crenças, pensar se a ideia oposta é viável ou, não sendo, tentar refuta-la com suas próprias ideias. Ao invés de colocar duas ideias diferentes em perspectiva e tentar ampliar a visão de mundo, a maior parte das pessoas, na maior parte do tempo, reage como se o oposto fosse um inimigo, buscasse o mal e apenas o próprio beneficio o tempo todo. É neste momento que os argumentos ad hominem abundam. É neste momento que desconstruir a imagem do interlocutor parece muito mais viável e inteligente do que refutar o sistema de ideias dele. É, amiguinhos, acho que ver muito He-Man na infância pode ter amolecido nossos cérebros, e logo pensamos que quem não é um Guardião do Universo logo é um assecla do perverso Esqueleto.


Mas o mundo não tão preto e branco assim. E pode doer, mas quem acredita no socialismo, na maior parte das vezes está querendo construir um mundo melhor tanto quanto quem acredita no livre mercado. Quem é contra cotas raciais pode ser tão contra o racismo quanto os que acham correta esta forma de compensação histórica. Muitas pessoas que se posicionam a favor da flexibilização do aborto não são monstros apoiadores do infanticídio, apenas querem uma vida melhor para o conjunto da humanidade assim como os que são contra. A diferença é apenas o ponto de vista. Acredito de verdade que a maioria da humanidade é boa. Se não fosse assim, com 7 bilhões de seres humanos, o mundo já teria explodido muito tempo atrás.


Convido então, todos a fazer um exercício comigo, na próxima vez que vir uma opinião que lhe pareça muito divergente do seu sistema de crença, calce as sandálias da humildade, imbua-se  de um pouco mais de empatia que consegue utilizar e tente pensar como o outro. Tente entender de onde saiu aquela ideia, tente ver porque é tão dissonante com o que você acredita. Tenho certeza que, no mínimo, argumentos mais fortes para defender o seu ponto de vista você irá conseguir.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

O espécime

A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto, o quão frequentemente seus mal-entendidos, o quanto sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua gloria e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginaria auto-importancia, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.

Carl Sagan - Pálido Ponto Azul
 

- Ola, Clementina!
A voz, embora doce, parecia sair de um rádio datado de 1920. Imerso nas sombras, o estranho fantasma de olhos brilhantes se esforçava para não assustar a garota. Ela vacilava entre ficar ou subir as escadas do porão abandonado correndo. "A assombração é mesmo real", ela pensou surpresa. Sentia medo, mas não ameaça. Ela manteve-se calada.

- Que dia é hoje? Em que ano estamos?
Disse a criatura nas sombras como se despertasse. Clementina não conseguia vê-lo direito, mas teve certeza que o ser se movera. Os móveis ao redor dele tremeram e se arrastaram. Ela deu um passo para trás e subiu um degrau. O coração galopava a mil por hora. Nenhum dos meninos tivera coragem de entrar, mas ela aceitou o desafio para provar que garotas são melhores. Decidiu não fugir imediatamente.

- 30 de abril de 1950.
Ela disse. Percebeu, então, que talvez a oportunidade de fugir tenha lhe escapado da sola dos pés, que responder a criatura foi seu maior erro, e que agora seria tarde demais. Os olhos amarelos se ergueram no escuro, e o movimento do suposto fantasma foi acompanhado pelo ruido de metal, ferrugem, correntes e coisas caindo ao redor. Ela subiu mais um degrau, mas estava hipnotizada. Fascinada. Seria mesmo um fantasma? Será que fantasmas existem Como ele sabia o nome dela?

- Obrigado. Estive te esperando por muitos anos. Desde que os donos da fazenda abandonaram esse lugar. Foi por causa da morte do filho. Isso aconteceu há quase 150 anos. Para minha sorte, ninguém mais veio morar aqui... Acho que julgaram o local mal assombrado... Mas ele voltará a ser abrigado daqui há alguns meses
- Isso foi muito tempo antes de eu nascer. Como você podia estar me esperando?
- Não quero te assustar Clementina, mas de onde eu venho, você é muito conhecida.
Aquilo soou estranho. Ela não estava assustada. Tinha medo, claro, mas estava muito mais curiosa. Principalmente diante da comprovação de que fantasmas poderiam mesmo existir. Os olhos amarelos, duas bolas distantes uma da outra, não pareciam humanos, mas também não pareciam amedrontadores.

- Você não está me assustando. Eu vim até aqui! Você acha que está me assustando porque sou uma menina? Nenhum garoto teve coragem de entrar aqui, se quer saber.

- Oh, não! De onde eu venho, as mulheres são, ou eram, tão valorizadas quanto os homens. Mas isso está no passado. Ao menos para mim.
Clementina teve uma mãe forte e tias inteligentes . Os homens da família, no entanto, é que ganhavam dinheiro e que davam a palavra final, mesmo que fosse uma estupidez. Ele, o fantasma, devia ter vindo de muito longe.

- Eu ouço seu coração também. Consigo ver reações do seu corpo que não poderiam ser medidas por vocês. Mas não te acho covarde, de qualquer forma. Você nem sabe o que sou, e ainda está aqui, conversando comigo. Poderia não ser uma ação inteligente, no entanto. Mas, para nossa sorte, acho que não é o caso. Eu poderia me levantar, poderia aparecer para você? Não vou te fazer mal, eu juro. É que estou há muito tempo nessa posição.
"Ele jura... interessante", ela pensou enquanto, de costas, subia mais um degrau.

- T... Tudo bem.
A luz fraca e alaranjada que entrava dos basculantes mostrava flocos de poeira flutuantes. Eles se agitaram quando o ser avançou. A menina arquejou. Com certeza ela fugiria, se pudesse, mas ficou paralisada, sem reação, dominada pelo medo. Entre as frestas de luz crepuscular ela viu uma estranha mistura do que seria, em sua imaginação, algo entre um disco-voador, um trator e um... gorila, por assim dizer. Uma forma gigante, com mais de meia tonelada, braços fortes como o de um símio, metalizados, cheios de fios e tubos. Ele sabia que ela estava terrificada, mas não pode evitar exercitar as juntas.

- Eu tinha medo de acordar e você não estar aqui, como previsto. Você deve estar se perguntando como pude prever isto. Bem, não previ na verdade. Apenas lemos no seu diário. Haha! Me desculpe! Estou me adiantando um pouco. Ainda estou confuso com tantos anos dormindo. E viagem no tempo não é lá uma ciência muito precisa...
Quando o estranho ser olhou novamente, ela havia partido. Ele suspirou, voltou para o canto e, mais uma vez, começou a dormir. No dia seguinte, no entanto, despertou com a garota sobre o seu corpo. Ele não se moveu, mas ela recuou com agilidade até a porta ao ver que os olhos amarelos estavam acesos novamente. Ela parou exatamente no mesmo lugar, no pé da escada, preparada para fugir. Embora não tivesse feições, o tom de voz da "assombração" sugeria um sorriso.

- Ok, Clementina, você me pegou. Eu sou mesmo uma assombração... Mas não uma assombração do passado, como nos seus filmes. Sou uma sombra do futuro... De um futuro que poderia ser maravilhoso se os humanos ainda estivessem lá. Eu tenho uma missão para você...
Ela permaneceu parada e em silêncio por uns instantes, depois sentou-se no primeiro degrau e sorriu.

- Eu tenho 12 anos, sabe? E gosto muito de ler e estudar. Mas as pessoas acham que não serei ninguém. Só uma mãe e dona de casa. O que eu mais gosto é de matemática e de observar o espaço com meu avô. Minha tia não pode ter filhos, sabe? Ela ficou feliz quando vim com o meu pai morar com ela e meu avô, embora tenha sido por um motivo trágico. Eu gosto de um menino. O nome dele é Anderson. O pai dele é fazendeiro, como meu avô. Se bem que meu avô não é um tipo comum de fazendeiro. É mais como se fosse um hobby. Ele gosta mesmo é de olhar para o céu... para os planetas, sabe? Eu beijei Anderson na boca, mas agora não quero mais vê-lo. Ele estava do lado dos outros garotos que disseram que só servimos para cuidar da casa e das crianças...
Ela falou durante quase duas horas. Sem parar sequer para tomar fôlego. Com um misto de tédio e ternura, a criatura ouviu a história silenciosamente. Depois que ela terminou de falar, ele finalmente se apresentou.

-Coincidentemente, meu nome é Anderson.
- Muito prazer. Eu sou a Clementina.
- Eu sei quem é você.
- Sim, mas ainda não me apresentei a você.
- Você tem um ponto.
- Você é algum tipo de bicho?
- Acho que não.
- Você é vivo?
- De certa forma, sim, mas não como você.
- Como, então?
- Bem eu não sou uma forma de vida orgânica, para resumir, como você, os animais, insetos e plantas. Mas eu sou vivo. Sou uma inteligência artificial. Houve um momento, na história da humanidade, chamado de singularidade. Em linhas gerais, para te explicar, foi o momento em que os computadores passaram a pensar por si só se criarem e recriarem, cada vez melhores. Muita gente teve medo de uma guerra, e fomos até atacados algumas vezes. Uma coisa que aconteceu muitas vezes antes, entre os próprios humanos, de alguém ser atacado por medo. Acontece nesse exato momento, na África do Sul, por exemplo...
- Vocês foram atacados e não revidaram?
- Não foi necessário. Ocorreu uma grande catástrofe e pudemos ajudar os humanos. Em conjunto, conseguimos impedir o fim da humanidade por um tempo. Mas após alguns séculos, as consequências da exploração irresponsável da Terra e as consequências dessa catástrofe tornaram o planeta um lugar inóspito para as outras formas de vida.
- E de onde você vem?
- Do ano 2700.
- Hã... Nossa...
- Parece distante, mas não é. Acredite.
- Ahã...
- Por isso viemos para o passado. Para tentar evitar ao menos uma parte as perdas.
- E essa seria a minha missão?
- Pode se dizer que sim. Você será a portadora da Luz. Já ouviu essa história?
- Não.
- Bem... Não vou me alongar contando coisas desnecessárias. Basicamente, sua missão será portar um conhecimento importante para a humanidade para que ele sobreviva ao tempo.
- E como eu farei isso? Eu não gosto de ser chamada de criança. Você está me dando uma responsabilidade grande, e isso é bem empolgante. E eu posso vir aqui com uma frequência, se as pessoas não perceberem. Mas a maioria dos adultos me vê como uma criança inútil e não posso ir muito longe e nem por muito tempo. Além disso, por mais que você me diga que o ano de 2700 não é distante, bem para mim é. Tenho certeza de que não viverei até lá.
- Vai ser simples. Prometo. Preciso voltar para o meu tempo e isso ocorrerá daqui há alguns dias.
- Certo. Qual a minha missão?
- Que dia você pode voltar?
- Depois de amanhã, acho...
- Dará tempo. Sua primeira missão será trazer seu diário. Vou te instruir e ditar alguns cálculos que você não vai entender, mas talvez entenda no futuro. Ou outra pessoa consiga entendê-lo.
- Como você sabe que entenderei?
- Bem, eu não posso dizer. Se eu falar demais, posso mudar sua forma de viver a vida. Então toda a missão irá por água abaixo. Precisarei que você acredite em mim. Mesmo sem provas.
- Minha tia chama isso de fé.
- Podemos chamar assim, se você preferir.
http://idcondenados.forumeiros.com/t20-casa-abandonada

A menina levou quatro dias para conseguir voltar. Eles passaram muito tempo juntos. O robô ditou o texto e os cálculos e depois eles conversaram sobre a importância de pensar no futuro, no bem da Terra e de todas as espécies. Sobre como o valor da vida não diferia entre um humano ou um broto de feijão e como nada disso existia no lugar de onde Anderson veio.

- Mesmo que nada disso acontecesse e os homens soubessem viver em harmonia com o Planeta, sem matá-lo, um dia a Terra também chegaria ao fim. Então, vocês vão precisar de explorar o espaço, o mais longe que a humanidade seria capaz de ir, em busca de novos lares, a começar pelo sistema solar. E os cálculos que eu te passei... Agora... Agora você não pode escrever isso que vou te falar. Me prometa.
- Eu juro.
- E me prometa que guardará muito bem o seu diário, pois precisaremos encontrá-lo no futuro.
- Eu já faço isso. É meu diário. Tem coisas que ninguém pode ler aqui.
- Acharia desonesto com você se eu não te contasse o que são esses cálculos. Eles unem o que hoje vocês chamam de relatividade, que será bem diferente no futuro, com a física quântica, que também terá, inclusive, outro nome. Nós conseguimos isso sem os humanos e foi o que me permitiu voltar aqui. E isso permitirá o desenvolvimento de tecnologias para reverter parcialmente, adiar e, finalmente, preparar a humanidade para deixar a Terra, lado a lado com a minha espécie. Engraçado como uns poucos números e sinais podem mudar a história do Planeta. Se os homens soubessem isso antes, se soubessem de verdade...

Após o breve devaneio, a criatura silenciou. Olhou para Clementina e ela teve certeza de ver ternura e esperança naqueles olhos amarelos. Houve um clarão e ela desmaiou. Acordou no dia seguinte. Anderson a encontrara. Ela pegou o caderno e nunca mais voltou à casa assombrada. Também não contou para ninguém o que aconteceu. Mas nunca se esqueceu da voz doce e permissiva que lhe entregou a chave para o amanhã. Em 2010, aos 72 anos, Clementina Sacramento concluiu o último de seus trabalhos de física, mas morreu antes de entregá-los à universidade em que lecionava. Cientistas demoraram a ter acesso às descobertas da incrível mulher. As teorias que ela formulou, muito à frente do próprio tempo, ajudaram a humanidade alguns séculos depois e ela se tornou uma cientista renomada, no mesmo nível que um Albert Einstein ou um Isaac Newton, laureada em todas os centros de pensar do mundo. O que os historiadores não entenderam foi como, aos 12 anos, ela descreveu em seu diário de menina a mais importante das equações da física. Não fazia sentido.

Antes de morrer, Com os cabelos grisalhos e o rosto marcado por rugas, inconsciente, entubada, irreconhecível, presa a uma cama de hospital, em um momento de inconsciente lucidez, ela sonhou que Anderson, o fantasma, estava lá com ela. "Se vocês conseguiram chegar tão longe, porque voltar no tempo e salvar os humanos? Somos criaturas, as vezes, tão mesquinhas e decepcionantes. Esse é, na verdade, o único mistério que me instiga", ela questionou. "Nós fizemos isso porque podíamos", ele respondeu. Então, tudo se apagou para todo o sempre.


* Conto inspirado no livro Ismael, de Daniel Quinn.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Sonhos moribundos

Um grande cortejo fúnebre caminha vagarosamente pelo espaço indefinido; a multidão, lúgubre, acompanha o cortejo com os olhos cheios de lágrimas. Ninguém sabe ao certo quem está dentro do caixão, ninguém está realmente triste, mas todos sentem um enorme vazio no fundo de suas almas.


É com esta pequena imagem metafórica que gostaria de começar o colóquio desta quarta. Acho que induz muito do sentimento coletivo que o Brasil, e mesmo o mundo, vem experimentando. O olhar coletivo tem algo de vacilante, quando nos atrevemos a tentar olhar para frente, parece cada vez mais se espessar uma neblina de pesar e incerteza.

Os jornais são unânimes em afirmar que grandes líderes são uma espécie em extinção, hoje é difícil apontar um líder da envergadura de um Gandhi, de um Winston Churchill, de um Martin Luther King Jr. ou de um Juscelino Kubitschek. Faço um pequeno parêntese para esclarecer que não coloco todas estas figuras em um mesmo pedestal; tenho minhas reservas, a uns mais que a outros. No entanto, é inegável que eles tinham um poder de liderança enorme! Não sei muito bem apontar quando esta extinção começou, e nem me proponho a tanto. Minha intenção aqui é apenas a catarse desde sentimento que tenho que perdemos nossa capacidade de Sonhar enquanto Humanidade.

Antes de procurar grandes líderes precisamos examinar as características que estes homens e mulheres costumam exibir. São pessoas que conseguem levar seus pares a os verem como pares, isto é, sem exibir uma suposta superioridade pavoneada por muitas regalias. Estes líderes costumam ter enorme empatia, sabem como as massas se sentem e conseguem fazer com que as massas se sintam como eles. Outro ponto bastante comum é o apreço à cultura. Apreço à cultura humanística, gosto em ler clássicos da literatura, em saber até onde a ciência conseguiu avançar e quais os desafios presentes, apreciar arte cênica e plástica, enfim sorver tudo que a evolução cultural da humanidade tem a oferecer. Sentem-se partícipes desta humanidade e pretendem contribuir para que ela continue a produzir belas pérolas como vem fazendo há milênios. O que estes homens nos apresentam é seu projeto, seu sonho, para os próximos passos da humanidade. E sonhando juntos grandes grupos sociais vão construindo o arcabouço que nos trouxe à era da Internet, da menor taxa de mortalidade infantil de todos os tempos, da longevidade, à era que está buscando conhecer e entender os recônditos do espaço.

O simples fato de falar destas coisas parece ascender uma chama de desejo de vivenciar e construir estas coisas. Mas o que vejo, ouço e percebo hoje é uma enorme massa de pessoas que se lixam para a construção do VLT (Very Large Telescope), pouco se importam com quem foi ou o que escreveu Machado de Assis, não querem saber do famoso discurso de Martin Luther King, “I have a dream”, e Picasso ou Leonardo da Vinci são meros nomes que pintores, não diferenciariam a obras de um ou de outro. Outra parcela, esta menor, retira um pouco da cabeça da completa ignorância da cultura, mas está tão comprometida com a própria causa, aquela que lhe aperta o calcanhar, que se esquece de que este é um problema da humanidade, e o sonho da construção de uma sociedade melhor é esquecido em detrimento de se retirar aquela pedra que o incomoda. Pessoas são feridas e esquecidas, todos os que não concordam 100% com suas visões de mundo são inimigos e perversos. Há ainda mais outra pequena parcela, que até se importa, que até vê o todo, mas que está ocupada demais com os infinitos estímulos que o mundo lhe oferece. Assim não sobra muita gente a sonhar com o próximo passo para a humanidade. Infelizmente posso afirmar com tristeza. Hoje conheço poucos homens que sonham.




"Nos últimos dias, consegui ver a minha vida como a partir de uma grande altitude, como um tipo de paisagem, e com uma sensação cada vez mais profunda de conexão entre todas as suas partes. Isso não quer dizer que terminei de viver.
Pelo contrário, eu me sinto intensamente vivo, e quero e espero, nesse tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar se eu tiver a força, e alcançar novos níveis de entendimento e discernimento."
quando este descobriu que o câncer que 
tinha estava em estado terminal) 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A ficção científica e a chave para o real

http://cienciahoje.uol.com.br/blogues/bussola/2014/11/2014-uma-odisseia-no-espaco-tempo

No documentário Capitalismo, uma história de amor, Michael Moore dá início ao filme de forma magistral, com uma série de cenas de assaltos e um documentário antigo da Enciclopédia Britânica sobre a vida na Roma Antiga (!?). "Roma era a mais bela cidade do mundo antigo", começa o narrador. Em seguida, ele fala sobre como a fachada de grandeza escondia "sementes de decadência". A medida que o narrador avança, Moore intercala as cenas de Roma com imagens dos Estados Unidos. Se você não viu, brinque de imaginar. Se já viu, tente adaptá-las ao seu país, à sua realidade. Economia dependente de escravos, disparidade entre ricos e pobres, proliferação de favelas, pouca mobilidade social, entretenimento para divertir a população (corridas e lutas!), ditaduras, funções de um governo eleito pelo povo que esbarram em autoridades superiores, governantes irresponsáveis...

"Pergunto-me como nossa sociedade será vista no futuro. Nós seremos julgados por isso?", questiona nosso querido Michael assim que a introdução da Enciclopédia Britânica chega ao fim. Não vim aqui para falar de capitalismo. Vim para falar de um tema que ocupa um grande espaço da minha mente há muitos anos: a ficção científica, ou, se preferirem, o sci-fi! O que Moore faz, basicamente, é mostrar que os sinais de decadência da Roma Antiga estão bem claros na nossa sociedade. Os problemas amplamente estudados do passado se repetem em um mundo, muitos concordarão, em decadência. O documentário faz uma crítica ao Império Romano. Nossa cara pensar naqueles povos de antigamente, tão inferiores. Mas o que seremos daqui há cem anos? O que os documentários da Enciclopédia Lestásia dirão sobre esse povo rústico nas telas de uma televisão diferente da que conhecemos hoje, projetada por um equipamento pequeno sobre um aparador, por sua vez, não tão diferente dos que vemos hoje? Eles dirão: "Hail to the big brother!".

Quando Moore coloca nossa sociedade submissa aos julgamentos de um povo do futuro, ele quase faz uma concessão à ficção científica que emerge das nossas imaginações. No livro O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder faz um desafio. Imagine uma coisa que nunca existiu! Imagine agora! Você não precisa. Ela nunca existiu. Tudo o que imaginamos, do mais absurdo e perturbador ao mais trivial, por mais inédito que seja, é feito com base em referências do que conhecemos. A terrível face de Cutulo nada mais é que a mistura de um elefante e de uma lula? Possivelmente. Assim é o futuro tal qual imaginamos. Projeções e misturas de nosso presente e passado. Desnecessário dizer que a ficção científica apresenta variados cenários? Nem tanto. Não precisa ser necessariamente sobre o futuro, por exemplo. Pode ser um "passado" mais avançado que o nosso. Isso é perfeitamente possível. A Europa retrocedeu no tempo após a queda do Império Romano. O Islã radical, hoje, também nos ameaça com um retorno forçado à tempos de barbárie. E levamos muito tempo para reaprender como levar as pedras das pirâmides sobre a fofa areia do deserto.

Podemos falar de um presente que se mescla, de alguma forma, com o futuro. Nos filmes de invasão alienígena, o ser humano precisa desenvolver ou compreender e dominar a tecnologia intergalática. Seja para vencer a ameaça, seja para fins pessoais, como aconteceu em Distrito 9, do genial Neil Blomkamp. Na trama, os humanos promovem um apartheid aos camarões. A história faz referência a uma condição humana e a um momento político cruel da nossa história, e ainda traz à tona reflexões sobre A Metamorfose de Kafka (não vou colocar link aqui, apenas para obrigá-lo a procurar o livro por conta própria, se ainda não tiver lido). Outro cenário, o futuro próximo ou distante também nos coloca em uma posição diferente, para enxergarmos outro ângulo da caixa na qual estamos presos. As obras de Philip k. Dick, que inspiraram clássicos do cinema como Blade Runner e O Vingador do Futuro são muito boas em levar os seres humanos para a degradante situação de colonos, por exemplo, e a lidar com problemas criados a partir de soluções pensadas à curto prazo (Bin Laden, é você?). E o grande mestre da ficção científica, o bom doutor Isaak Asimoov (achou que eu não fosse falar dele, não é?) vai além quando, na trilogia Fundação, mostra uma humanidade em vias de se deteriorar, e que sequer se lembra do passado em uma onírica Terra (nada a ver com a nossa história!).

Há na ficção científica a fina poesia do presente. A realidade é o óleo viscoso que banha as engrenagens da máquina do tempo. O portal interdimensional que transporta a imaginação ao nosso mundo, que se abre quando apertamos o play ou abrimos um velho livro sobre o amanhã que estava empoeirado nas nossas estantes. As mentes mais simplórias tomam a pílula da iniciação científica. O que eu quero dizer é que com um pouco de imaginação, podemos chacoalhar a caixa para descobrir o que há lá dentro. Podemos entrar na toca do coelho. Se o objeto se arrasta ou se rola. Se faz barulhos estridentes ou graves. A ficção científica nos traz a oportunidade de olhar diferente, de mudar as nossas perspectivas para compreender o presente, para evitar os erros do passado e para sonhar com dias melhores, de modo a alcançar esses sonhos. Se vivemos, hoje, tempos comparáveis ao do declínio e queda do Império Romano, como serão os tempos vindouros? O que perderemos nos giros para trás desse terrível construto chamado História? Logo agora, que estamos tão perto de uma nova fase de exploração do espaço!

As religiões brigam entre si pelo monopólio da origem dos homens. Mas a verdade está lá fora.  Enquanto guerreamos por fantasias e linhas imaginárias chamadas de fronteiras, "na adolescência da humanidade", como diria a radioastrônoma Eleanor Arroway, o espaço frio e fantástico nos aguarda. O mundo é fabuloso em si. A Terra é pequena demais para ambições tão mundanas quanto as da nossa sociedade, mas é a base perfeita para nos lançarmos ao espaço, ao futuro, ao amanhã. Basta que estejamos unidos. Impossível não lembrar Carl Sagan, quando o cientista e divulgador olha para o ser humano com esperança. “Nós que não conseguimos nem colocar nosso próprio lar planetário em ordem, divididos por rivalidades e ódios, havemos de nos aventurar no espaço afora? Quando estivermos prontos para morar no mais próximo dos sistemas solares, teremos mudado. Não seremos nós que alcançaremos Alpha Centauri. Será uma espécie muito parecida conosco, porém com mais de nossas forças e menos de nossas fraquezas. Mais confiante, visionária, capaz e prudente.” Pense em espécie.

Até o amanhã...

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Liberdade x Libertinagem

Hoje há uma mentalidade de se querer a liberdade a qualquer preço, pois todos têm direito de fazer suas escolhas, sejam elas quais forem. E ainda, para se conviver bem em sociedade, prevalecem as ideias que a maioria escolhe.

Mas o problema é que, em um ciclo histórico conturbado em que vivemos atualmente, as pessoas em geral (nós!) não possuem referencial. As escolhas serão, portanto, baseadas em interesses pessoais, nos instintos diversos do ser humano (sobrevivência, procriação, preservação da vida e outros). Como os interesses de cada um são distintos, harmonizá-los é considerado algo difícil, um fator que gera vários conflitos, o que cria uma grande separação entre os seres humanos.

Sem entrar no mérito dessa separação, a ideia de que liberdade é “poder de exercer livremente a sua vontade” prevalece e é bastante utilizada nos dias de hoje. A frase está correta, mas o que se entende por vontade hoje é diferente do que significa de fato. O conceito de vontade atualmente está relacionado com a capacidade de fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Entretanto, o querer fazer ou não está mais relacionado com o desejo que se tem sobre algo.

Pensadores clássicos (sintetizando a ideia de vários cujos nomes não citarei aqui agora) faziam uma distinção entre os conceitos de vontade e desejo. A primeira seria como uma “lei universal”, um impulso que faz com que tudo exista e ocupe uma função no Cosmos, e está presente em tudo no universo. O desejo, ao contrário, não está preocupado com a utilidade do todo, mas sim em satisfação pessoal, muitas vezes a todo custo.

E hoje, esse conceito de fazer o que quiser, de se ter “liberdade”, prevalece sobre qualquer outro, e agora todos têm o direito de fazerem o que quiserem, desde que não restrinjam os desejos alheios. Em geral, objetivamos com a “liberdade” uma independência total, de tudo e de todos, de não se comprometer com nada, para assim não ter que prestar contas nem com o que se fala, nem com o que se faz, nem com o que se pensa... Ou seja, uma verdadeira negação da responsabilidade.

Agora, seguindo esse conceito, de que vale tudo, surgem atitudes entre os seres humanos que não cabem à natureza destes (a meu ver). O “ser humano”, entre aspas mesmo, se torna bruto, deixa os seus instintos animais prevalecerem, cometem atrocidades que, às vezes, nem um animal é capaz de cometer.

Que liberdade é essa que, ao invés de deixar o ser humano livre para exercer sua própria natureza humana, deixa-o tornar-se escravo de seus próprios desejos? Essa ideia, a que chamam de liberdade, não é, portanto, liberdade de fato, e sim o seu oposto: libertinagem.



Não estou falando de nenhum conceito religioso que esse termo possa nos remeter; mas o fato é que a libertinagem apresenta a ausência de regras. Neste caso sim, cada um faz o que quer, de acordo com seus interesses. O filósofo alemão Immanuel Kant diria que “liberdade é seguir as leis da natureza”. Sem entrar em muitos detalhes no momento sobre como seriam essas leis, pois há muito “pano para manga” para falar sobre, parece-me que há certos acontecimentos que são naturais pelo menos dentro de algum período; coisas simples com a busca da planta pela luz e alimento, a resistência de uma pedra, os ciclos da vida em todo tipo de ser... o nascimento e a morte... Então, para nós seres humanos também devem existir leis próprias, espécies de regras que devemos seguir, não cegamente, como algo obrigado, mas sim por compreensão. 

Numa sociedade em que se cultiva a libertinagem, o resultado é uma degradação generalizada, tanto do próprio ser humano quanto de tudo que o rodeia, que é cuidado por ele; não há valores humanos; pelo contrário, o que toma conta são a grosseria, a brutalidade, a indiferença e a irresponsabilidade. Como consequência, vemos o aumento dos crimes, a delinquência, a busca pelo que é ruim, mórbido, nefasto... Mas... dizem que cada um é livre para fazer o que se quer... 

Na minha humilde visão, de uma pessoa cheia de defeitos e desejos bem egoístas, ainda acredito que é necessário resgatar esse conceito de liberdade, para que cada um reconheça o seu papel no mundo, dentro da sociedade em que está inserida. Saber o que é justo para si mesmo, para as suas diversas partes e necessidades que o constituem, para que possa reconhecer essa justiça fora, nas pessoas e lugares ao seu redor. Essa escolha consciente, para mim, é a liberdade. Espero consegui-la...

quarta-feira, 1 de julho de 2015

União das Repúblicas Pentecostais Brasileiras

Como bom discípulo de Uatu gosto muito mais de observar e tentar antever para onde as coisas caminham do que necessariamente fazer julgamentos de valor dos rumos que os acontecimentos tomam. Pois bem, a recente discussão sobre maioridade penal caiu como uma luva para este tipo de observação desapaixonada, ao menos para mim. Não tenho posição, realmente acho que, reduzir ou não, não fará muita diferença no caos que vivemos nas ruas de nosso país. Concordo com o que são contra apenas no ponto em que dizem que o problema da violência não está na punição, mas precipuamente na educação. Porém se concordamos que jovens de 16 anos podem escolher seus representantes através do voto, não seria estranho tê-los como maduros o suficiente para responder tal qual adulto ao menos para crimes graves... A questão é complexa pacas no campo ideológico, mas quando se a joga para o mundo prático ela tem pouca alteração, pois as coisas que estão sendo alteradas já são cosias que pouco funcionam mesmo. Enfim, não pretendo me estender neste debate, meu foco aqui é nas deliciosas entrelinhas...

Ontem, ao sair do trabalho, já depois das 19h deixei para trás uma Esplanada dos Ministérios cheia de viaturas policiais, manifestantes apaixonados de dois lados opostos, alternando entre um carro de som enorme que tocou o hino nacional o dia inteiro e manifestantes ligados a entidades estudantis com suas costumeiras palavras de ordem. Dentro da Câmara dos Deputados os excelentíssimos debatem a Proposta de Emenda Constitucional 171/93. Ligo o rádio e vou embora. O rádio está sintonizado na Band News, a jornalista Dora Kramer falava de política e eu decido ouvir, ao invés de mudar para o meu pendrive para ouvir minhas músicas. Dora falava sobre a possibilidade de José Serra se candidatar à presidência em 2018, mas por outra sigla, ele faria uma mudança para o PMDB a fim de evitar o longo processo de decisão disputando o cargo de candidato com Aécio e Alckmin. A entrevistadora de Dora pergunta como seria possível isso, sendo Serra tão pragmático. Dora responde que o PMDB também é muito pragmático, quer o poder, e ter Serra como candidato pode leva-lo até lá. Guarde estas informações.

Hoje cedo acordo com a notícia de que a PEC 171/93 foi derrotada. Todos estão felizes, todos comemoram. Lógico que este "todos" exclui os 90% de brasileiros que são a favor, porém abarca a elite cultural de formadores de opinião. Acontece que, pouco mais tarde, ao abrir os portais de notícia me deparo com a que informa que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), já tramaum retorno do tema, assim como fez com os financiamentos de campanha. É bom lembrar que a derrota da PEC se deu por meros 5 votos, e isto não para alcançar maioria absoluta, mas não deixar alcançar os ⅗ necessários para emendar a Constituição. Ele deixaria de fora o crime de tráfico de drogas e votaria novamente. Se o fizer, certamente ganhará. Todos ficarão tristes, todos lamentarão. Menos os 90% de brasileiros que concordam com a redução, e o bom brasileiro que conseguiu esta vitória quem foi?! Ele mesmo, Eduardo Cunha, que ganha o protagonismo dessa batalha ganha.

Apesar disso, Eduardo Cunha ainda não teria cacife eleitoral para ganhar uma eleição majoritária para Presidente, porém poderia ser um vice muito forte para qual quadro do PMDB?! Aham, ele mesmo José Serra! Junto a Eduardo Cunha facilmente podem vir a se tornar uma chapa vencedora. Cunha, ardiloso, mas sem o carisma necessário, sedento de mais e mais poder, pode enxergar em Serra um excelente trampolim. Serra já se deixou ser ofuscado por Alckmin, porque não o seria por Eduardo Cunha? Sem possibilidade de reeleição Cunha seria o candidato natural para 2022.


Quanto à maioridade penal, casamento homossexual ou quaisquer outros temas, não se iludam. Não vejo muitas semelhanças de Eduardo Cunha com o fundador do Nacional Socialismo Alemão. Não, o compararia a outra figura vilanesca do passado, com o bigode um pouco mais cheio. Refiro-me ao Homem de Aço, Josef Stalin.

Stalin também tinha muito mais de astuto articulador político que de líder carismático, assim como Cunha. Stalin saiu de uma posição de destaque algum para meteoricamente assumir a presidência do Partido Comunista da URSS. Stalin tinha muito mais afeição ao poder que às ideologias, nunca demonstrou grande apreço ao pensamento de Marx, Engels ou mesmo Lenin. Aliás, nunca demonstrou grande apreço ao pensamento em si. Soube, no entanto, utilizar a comoção com a morte de Lenin e o desejo do povo russo de ser protagonista no mundo, rivalizar com a Europa, para ganhar mais e mais poder. Eduardo Cunha tem mostrado as mesmas características: sabe manobrar muito bem o sentimento nacional, tem pouco apreço às ideologias e muito ao poder.